A STEYR HAHN

Essa foi a arma curta de dotação oficial dos exércitos do Império Austro-Húngaro e da Romênia, em 1912, antes da eclosão da I Guerra Mundial, em 1914. Começou a ser produzida em 1911, pela Waffenfabrik Steyr, uma empresa que já possuía boa reputação na fabricação de armas e contava, em seu quadro de colaboradores, com alguns gênios, como Ferdinand Ritter von Mannlicher e Otto Schönauer. Essa arma representou uma enorme evolução sobre a Roth-Steyr, modelo 1907, até então a pistola adotada pelo exército da Áustria e que era indiscutivelmente inferior. Para ela, desenvolveu-se um cartucho novo, o 9mm Steyr (9x23), exatamente a mesma medida do seu contemporâneo 9mm Bergmann-Bayard, do qual falaremos na parte II desta série. Durante a anexação da Áustria em 1938, o Exército Alemão chegou a adotá-la para seu próprio uso naquela região, transformando-as em 9mm Parabellum (9x19).

Comparação dos cartuchos 9mmX19 Parabellum (Luger) com o 9mmX23 Steyr. A diferença de dimensões é só na altura do cartucho. Este cartucho 9mm Steyr, de 1918, possui o projétil encamizado em aço. (Foto do autor, coleção particular)

Essas armas modificadas foram carimbadas com as letras P08, ou simplesmente 08, para identificá-las das originais, e recebeu o nome oficial de Pistole Model 12(Ö). A letra “Ö” é oriunda da palavra Österreich, que significa Áustria na língua alemã. A arma funcionou sem problemas com essa transformação, uma vez que a potência do cartucho 9mm Parabellum estava um pouco abaixo da conseguida pelo 9mm Steyr. Historicamente, e nos meios colecionistas, a arma é mais conhecida como Steyr-Hahn, ou seja, Steyr “de cão”.

A pistola Steyr 1912, modelo transformado para 9mm Parabellum, e seu carregador para 8 cartuchos. (Foto do autor, coleção particular)

Seu funcionamento era no sistema de ação simples, ou seja, o cão externo tinha que ser armado antes do primeiro disparo, uma vez que já se estivesse com um cartucho na câmara. A única trava de segurança existente era uma pequena alavanca do lado esquerdo, próxima ao cão, que podia ser acionada com a arma engatilhada. Não possuía uma trava de empunhadura, nos moldes que se vê nas pistolas Colt 1911. O sistema de trancamento de culatra (locked-breech) era bem interessante, consistindo em um cano giratório, composto de estrias helicoidais e de dois engates que se encaixavam na armação e no ferrolho, respectivamente. Na ocasião do disparo, e com o curto recuo do cano (8.0 mm), seu movimento giratório fazia com que os engates do cano se soltassem do ferrolho, liberando assim seu movimento.

Vista explodida da Steyr 1912 onde pode-se notar o cano giratório e seus engates. Veja também o detalhe do carregador embutido, monofiliar, para 8 cartuchos.

Uma das maiores falhas de projeto dessa arma tenha sido, talvez, o seu sistema de carregador fixo, embutido na empunhadura, uma solução já ultrapassada mesmo nessa época, visto que algumas pistolas de uso militar, como a Colt 1905 e mesmo a 1911 já possuíam carregadores destacáveis. O municiamento tinha que ser feito através de uma lâmina (clipe), muito similar à utilizada nos fuzis Mauser e na pistola Mauser C96, com capacidade de 8 cartuchos, que se encaixava em um recesso na parte superior do ferrolho. Uma vez empurrados os cartuchos para o interior da arma, esse clipe era retirado para que o ferrolho se fechasse. Era possível se municiar a arma sem a utilização de um clipe, mas o trabalho requeria uma certa habilidade.

Uma imagem em Raios-X onde se observa o cano com ranhuras e os respectivos encaixes no ferrolho e na armação.

Aqui, numa visão em Raios-X do lado esquerdo, percebe-se a culatra trancada, com os ressaltos do cano devidamente encaixados no ferrolho. Note também a peça que servia como retém dos cartuchos, bem como a sua mola, alojadas do lado esquerdo da empunhadura.

Através de uma pequena trava existente do lado esquerdo da arma, posicionada logo acima da tala da empunhadura, liberava-se o retém dos cartuchos; dessa forma era possível desmuniciá-la de uma só vez, apesar de que  deve-se tomar muito cuidado para conter os cartuchos que, por ação da mola, saltavam do carregador violentamente. Outra característica negativa da Steyr pode ser atribuída à sua empunhadura, desenhada em ângulo muito reto em relação à armação, o que atribuía à ela a possibilidade de um tiro instintivamente baixo. Porém, é interessante citar a semelhança que havia no desenho dessa pistola em relação aos modelos da Colt que antecederam a famosa 1911, como o modelo 1905, que também possuía o mesmo tipo de ângulo de empunhadura.

A Steyr Hahn com o ferrolho aberto e sendo municiada com seu clipe de 8 cartuchos. (Foto do autor, coleção particular)

Alguns especialistas acreditam que a Steyr-Hahn, se não fosse pelo sistema de carregador fixo, poderia ter se tornado uma arma muito mais utilizada e mais bem aceita no mundo, mantendo-se em produção por um período de tempo mais duradouro. Após a II Guerra, algumas dessas armas foram lançadas comercialmente na Europa, com acabamento mais refinado e com a inscrição WAFFENFABRIK STEYR no ferrolho, seguida de marcas de prova austríacas.

A Steyr-Hahn e seu cartucho original, o 9x23 Steyr. (Foto do autor)

A desmontagem dessas pistolas para manutenção e limpeza é muito simples. Remove-se o retém próximo à boca do cano, deslizando-o para um dos lados, liberando assim o ferrolho, que deve ser puxado para trás e levantado para fora de suas guias. A mola recuperadora mantém-se dentro do alojamento e pode ser retirada sem nenhuma dificuldade, assim como o cano. A desmontagem do restante da arma deve se limitar à pessoas com um certo conhecimento técnico e munida de ferramentas adequadas.

A Steyr-Hahn completamente desmontada (Foto do autor)

Apesar de possuir alguns detalhes desfavoráveis, a Steyr-Hahn provou, em sua utilização militar, ser uma pistola de alta confiabilidade, sujeita a poucos problemas, disparando um cartucho preciso, de grande penetração e potência para a sua época. Sua mecânica simples e a escolha de materiais de excelente qualidade, a tornaram uma arma extremamente durável. Entretanto, é conveniente se tomar certas precauções ao se utilizar essa arma, principalmente as que foram convertidas ao cartucho 9X19 (Parabellum), com cargas utilizando-se pólvoras modernas. Embora tecnicamente o cartucho 9X23 era mais potente que o 9mm Luger da época, tal fato hoje não é mais verdade. O autor efetuou uma dezena de disparos utilizando-se cartuchos 9mm Luger de fabricação CBC, para uso militar, e verificou que já ocorria uma sensível deformação nos "lugs" de travamento existentes no cano da arma.

Aliás, via de regra, esses cuidados devem ser tomados sempre que se pretende utilizar armas antigas com munição moderna. A arma deve ser cuidadosamente examinada a procura de materiais que já sofrem de fadiga, trincas, desgastes, etc. É natural e faz parte do gosto e da atividade de colecionismo o interesse em se disparar armas de coleção. Porém, tudo deve ser bem acompanhado de perto por pessoas conhecedoras para que se evite a perda ou dano irreparável da peça ou, o que é pior, ferimentos ao atirador.

Pistolas Clássicas -
"Steyr-Hahn"

por Carlos F. Paula Neto